A NOVA ROUPAGEM DO CADASTRO POSITIVO

Por Rono Bhering 18/04/2019 - 09:17 hs

    O governo resolveu jogar um pouco mais de sal na carne chamada Cadastro Positivo. Resta saber se é sal para fazer churrasco ou para disfarçar o mal cheiro do produto. Vamos começar do bê a bá pra desenvolvermos a ideia. Sancionado por FHC em 2001, o atual Cadastro Positivo tinha a intenção de ser uma forma de as empresas falarem bem de seus parceiros comerciais e clientes. Nada mais lógico. Se podem falar mal, colocando-os no SPC/Serasa, por qual motivo não ter o direito de falar bem colocando-os no Cadastro Positivo? Pois bem… 

    O fato é que não engrenou. A ideia era que os bancos e financeiras usassem o banco de dados que seria criado com o tal Cadastro Positivo, e assim passassem a ofertar crédito mais barato aos bons pagadores. Já que a adesão devia ser feita pelo cliente, o Cadastro ficou quase vazio. Um forte problema do mercado de crédito, aqui e no resto do mundo, é a assimetria de informações. O Itaú tem muito mais informações sobre uma pessoa do que a loja de móveis do meu bairro que faz crediário. O banco possui 60 milhões de clientes. A loja de móveis possui 1.000, no máximo. Logo, a loja de móveis corre riscos nestas operações que dificilmente o Itaú correria. E o contrário também é válido: a loja de móveis pode negar-se a fazer o crediário de um cliente que o Itaú sabe que é um bom pagador. Ganha o grande, Itaú; perde o fraco, a loja de móveis.

    Porém, uma boa ideia virou uma realidade vazia. Os grandes bancos não incentivaram seus clientes a aderir ao Cadastro e as pequenas lojas não possuem o poder de abastecer de maneira consistente o banco de dados do Cadastro Positivo. Agora o governo Bolsonaro quer mudar esta realidade. O novo Cadastro Positivo do PLP 441/2017 espera consertar essa terra pouco usada. As novas regras tornam a adesão das pessoas e empresas automáticas ao banco de dados do Cadastro Positivo. Quem quiser ficar de fora deve solicitar formalmente a exclusão. Se essa nova engrenagem de fato funcionar, pode ser que o volume e a qualidade do crédito no Brasil aumente. O novo sistema irá atribuir uma nota a cada pessoa, dependendo do volume de empréstimo tomado e a sua fidelidade em pagá-lo.

    Com essa nova roupagem, espera-se que a loja de móveis tenha o mesmo volume de informações financeiras sobre um cliente que o Itaú já possui hoje. A disputa fica mais limpa. O jogo fica mais justo. Ganham todos. Ou quase todos. Mas estamos no Brasil e nem tudo é o que parece, e nem tudo que parece é.